sexta-feira, 15 de março de 2013

Uma liderança em cada atitude


Pela sempre incontornável verdade dos factos, o PAIGC, embora sendo a força política visada, de forma mais directa, pelo último golpe, nas nossas aspirações ao merecido progresso, enquanto sociedade, ainda assim, esse conturbado partido, continua na posse, não do poder de autoridade efectiva, mas do poder de influência permanente, que democraticamente legitimado na vontade popular, segue beneficiando duma enorme alavanca, na pronta condenação e consequências, que chegou da parte mais significativa, dos nossos parceiros internacionais, repudiando as maliciosas intenções, dos identificados e crónicos prevaricadores. É nisso, e mais outros tantos factores de relevo, que os actuais dirigentes do PAIGGC, envolvidos nessas desnecessárias negociações, para a formação de um eventual governo de inclusão, devem apoiar com total firmeza, para se reabilitarem como políticos credíveis, ao mesmo tempo que poderão salvar o país, desse autêntico envenenamento em curso, denominado período de transição.

Como guineense, e com relativo conhecimento da nossa castigada realidade, compreendo que seja quase impossível, a esses referidos políticos, homens e mulheres do PAIGC, aguentarem na incerteza dos longos dias, à constante ausência da satisfação de certas necessidades, que as suas pesadas reputações inventaram, para uma adequada sobrevivência dependente. Mas deverão impor condições favoráveis aos avanços da democracia, mesmo sabendo que isso os vai custando algumas restrições, aceitando com coragem política, e física, caso seja inevitável, esses sacrifícios dignificantes, num inteligente aproveitamento desse momento crucial, que sem dúvidas maiores, revelará, verdadeiramente impulsionador, para a viragem qualitativa, na nossa gloriosa caminhada.

Devem saber os actuais dirigentes do PAIGC, protagonistas nessas negociações, que, nas circunstâncias em que o país se encontra, ao integrarem… Adriano Gomes Ferreira, mais conhecido por Atchutchi, na sua mais que conceituada andança; líder carismático, com uma visão dos mundos, para além de todos os amanhãs; um monumento vivo da nossa cultura, que com as suas virtudes e os seus defeitos, vai contribuindo para a grandeza de toda uma alma nacional… Sabe, existem raras personalidades na nossa sociedade, com elevadíssimos valores espirituais, ao ponto de poderem um dia merecer, incontáveis multiplicações, assim que os poderosos autorizarem a clonagem humana. Ups! Desculpe. É que está a passar aqui em áudio, enquanto escrevo o presente texto, uma das relíquias musicais do célebre Super Mama Djombo, um dos eternos prazeres, que acabou por desviar o sentido da minha reflexão.

Estava eu a falar dos aspectos a ter em pertinente consideração, pelos protagonistas do PAIGC, durante o percurso desses armadilhados corredores das negociações. E dizia o seguinte: ao integrarem um tal governo de transição inclusivo, sendo eles, elementos do partido maioritário na Assembleia Nacional Popular, o órgão da soberania, que apesar de debilitado, ainda está ao serviço da democracia, estarão a comprometer todos os nossos parceiros, a aceitarem esse período de excepção, como viável, e desbloquearem os canais diplomáticos e de financiamentos, o que servirá para os usurpadores profissionais, começarem a esfregar as mãos. Portanto, não deverá existir um acordo facilitado, só para garantia de lugares oficiais, despidos de conteúdo válido, na tomada das mais importantes decisões governativas.

Não se deverá aceitar sequer, condições para um acordo político, sem que haja uma garantia formal e exequível, da parte em posição de domínio, inclusive, todos os responsáveis do contingente da CEDAO no nosso território, de que será assegurado, um inteiro exercício de direitos à qualquer tipo de manifestações popular, para a reivindicação de prerrogativas, expressas nos diferentes preceitos constitucionais, desde que sejam devidamente organizadas.

Não se deverá aceitar sequer, condições para um acordo político, sem que haja uma garantia formal e exequível, da parte em posição de domínio, inclusive, todos responsáveis do contingente da CEDAO no nosso território, de que será assegurado, o regresso de todos os guineenses, sejam eles actores políticos ou simples eleitores, a viverem afastados, num asilo injustificado, independentemente das funções que tenham desempenhado no passado, e das suspeições sobre eles pendentes, para que o poder judicial, de maneira autónoma, venha a actuar em relação à qualquer dos casos, se assim entender, no restrito âmbito das suas atribuições constitucionais.

Até porque, constará como questão de honra, lembrarem durante todas as diligências negociais, que entre os muitos compatriotas nossos, submetidos ao asilo forçado ou voluntário, estão neste momento, o presidente e um dos mais destacado membros do próprio partido. Se por ter escrito uma carta destinada ao então Secretário-Geral das Nações Unidas, entre outros falatórios mais, carecidos de fundados esclarecimentos, Carlos Gomes Júnior, mereceu ser afastado abusivamente do poder, e remetido ao asilo, o que fez Raimundo Pereira de tão grave, para merecer alguma vida longe da pátria, com tudo o que isso implica, nos planos de um homem feito?

Os entendimentos diplomáticos mais favoráveis, aos ventos de uma mudança positiva, colocaram o timorense, José Ramos Horta, como representante do Secretário-Geral das Nações Unidas, no nosso território. Uma figura política decente, com devido reconhecimento internacional; laureado com um Prémio Nobel de Paz; e que chegou a experimentar durante uns anos, a amargura de um asilo político forçado. Por isso, espero que essa memória sirva ao seu melhor empenhamento na avaliação, e um competente auxílio, ao nosso complexo processo de reconciliação.

Com mais esta, a nossa sociedade enfrenta sim, sérias adversidades, e de uma transversalidade bem vincada, que nem está a deixar de fora, a parte dela na diáspora. Mas também, estamos perante uma oportunidade singular, e com potentes hipóteses, de finalmente, mudarmos para melhor, o rumo das nossas vidas.
 
Ser, Conhecer, Compreender e Partilhar
 
Flaviano Mindela dos Santos